O divã além da porta
por Jorge Forbes
Eu estava no começo de meus estudos de
psicanálise, mais ou menos na metade do meu curso de medicina. Quem me ensinava
a posição correta no divã da sala de análise era um consagrado psicanalista da
sociedade local, terno cinza, camisa branca, cara sisuda de conteúdo, com riso
comedido. E ele não ficava aí: a esta pérola da posição do móvel se somavam
outros ordenamentos práticos para o correto “setting terapêutico”, como assim
era chamado. Preferencialmente não se devia estender a mão ao paciente, o menor
contato físico poderia ser desencadeador de fantasias ancestrais perigosíssimas
ao tratamento. Por razão semelhante, nada de fotografias na sua sala. Imagine
um psicanalista que mostrasse sua família ou seus amigos, quão perturbador
poderia ser. Melhor mesmo é que nem livros tivesse, para não revelar seu gosto
literário, ou sua filiação científica. Vestir-se deveria ser sempre o mais
discreto possível: homens de gravata, mulheres de saia abaixo do joelho, sempre
de cores pálidas. Não atender, ah, isso era fundamental, não atender pessoas da
mesma família, para que a transferência não se misturasse nas intricadas redes
afetivo-familiares. Aliás, era melhor também não atender ninguém que morasse
nas cercanias do consultório ou da casa do analista, pois já imaginou como
seria horroroso, disruptivo mesmo, um paciente ver seu analista de bermudas em
uma manhã de domingo comprando um jornal na banca da esquina?
Se para ser analista fosse necessário cumprir
estas normas que para mim, apesar da pouca idade, me pareciam compor um forte
bestialógico, eu ia ter que escolher outra coisa para fazer na vida. Minha
crítica não recaía só sobre o cumprimento bobo dessa cartilha, mas
especialmente sobre a ideologia que a sustentava. É fácil perceber que tudo
está ali pensado para não “perturbar” o paciente. Ora, ora, uma análise foi
feita para fazer dormir, ou para acordar? Assim descrita, ela serviria para não
incomodar o paciente em seu sintoma, em seu sono irresponsável e inconsciente.
Continuando, percebe-se que havia uma tentativa de transformar o analista, sua
pessoa, seu corpo, em algo diáfano, invisível, o mais perto possível da famosa
“tela em branco” sobre a qual o paciente projetaria suas angústias, na certeza
de não vê-las misturadas com a pessoa que o atendia. Triste e capenga visão do
que seja a intimidade de uma pessoa: a lombada de seus livros? Suas fotos? Seus
amigos? Sua roupa? Não, nada disso, esses traços podem ser indicações, alusões
– e quantas vezes falsas! – mas não dizem do cerne de uma pessoa. Aliás, aí está
um dos desafios da psicanálise, o de levar a perceber que todas essas
características são apoios provisórios da identidade que um analisando deve ir
questionando, um a um, em seu trabalho analítico, desembaraçando-se do peso de
suas identificações, para poder alcançar o mais íntimo do seu ser, algo de uma
estranheza familiar, como diria Freud.
Já estava pronto para fazer outra coisa na vida,
como escrevi - pensei em ser gastroenterologista, pois percebia que a maioria
das queixas desse sistema se relacionava mais aos sapos comidos, que a pratos
mal preparados - quando me deparei na Livraria Francesa da Rua Barão de
Itapetininga, em São Paulo, com um livro de um tal de Lacan, que alguém me
havia assoprado muito levemente, só dizendo que tinha ouvido falar que ele
vinha afirmando coisas novas na psicanálise, lá pela Paris. Abri seu livro com
o título provocador de “Écrits”, como se abre livros ao léu nas estantes das
livrarias e me deparei com uma frase impactante, no capítulo intitulado “A
direção do Tratamento”: “O analista faria melhor situando-se em sua falta-a-ser
do que em seu ser”. Claro que naquele momento não entendi muita coisa desse
quase aforismo, mas entendi o suficiente para me convencer que havia uma outra
psicanálise possível, diferente daquela cheia de rituais de isolamento
obsessivos, e que eu poderia continuar em meu desejo de ser psicanalista.
Apostei: literalmente embarquei e fui conhecer de perto esse verdadeiro
acontecimento Lacan. Não me arrependi, continuo a viagem na certeza sempre mais
clara que uma intimidade não se apreende nem nos detalhes de decoração, nem nas
vestimentas, mas na ética de se responsabilizar, ou seja, de responder por esse
desejo que sempre nos interroga. E que viva a Psicanálise, além de qualquer
standard.
Gostei desse texto. Interessante!!!!!!
GilbertoJS Pinheiro